12/06/2022 às 16h09min - Atualizada em 12/06/2022 às 16h09min

Nova descoberta explica anéis de gelo gigantes encontrados na Sibéria

Vazamentos de gás metano, atividade alienígena, efeitos atmosféricos. São várias as teorias populares que tentam explicar a presença de anéis de gelo no lago Baikal, no sul da Sibéria.

Cristina Barroso
GizModo
(Reprodução)
Uma nova pesquisa realizada por uma equipe de pesquisadores da FrançaRússia e Mongólia parece ter finalmente chegado a uma explicação plausível para a ocorrência desse fenômeno: o movimento circular da água quente sob o gelo.

Os anéis de gelos foram detectados pela primeira vez no início do anos 2000 por meio de imagens do satélite MODIS. As partes internas dos círculos são brancas e brilhantes. As bordas, por outro lado, reservam um aspecto mais escuro, de tom azulado.

O lago Baikal da Rússia é o maior e mais profundo lago de água doce do mundo. É o lar de muitas variedades de peixes não vistas em nenhum outro lugar, e até de uma população endêmica de focas de água doce. E também possui anéis de gelo estranhos, que foram vistos pela primeira vez no início dos anos 2000 através de imagens do satélite MODIS.

Pesquisas publicadas no final do ano passado no Limnology and Oceanography apresentam uma explicação plausível para anéis de gelo estranhos que frequentemente aparecem no lago Baikal durante os meses de inverno: o movimento circular da água quente sob o gelo.

A forma geral de um anel de gelo não é realmente discernível para um observador em terra. Eles são grandes o suficiente para que sua forma de anel só possa ser vista de aviões e satélites. As partes internas dos círculos são brilhantes, enquanto os perímetros externos são escuros onde o gelo é fino. 

Os anéis tendem a ter cerca de 5 a 7 quilômetros de diâmetro, enquanto o perímetro externo escuro tem cerca de 1 km de largura, de acordo com a nova pesquisa. Os anéis duram de alguns dias a alguns meses durante o inverno siberiano.


O aparecimento de grandes anéis de gelo no lago Baikal, no sul da Sibéria, tem intrigado os cientistas desde que foram descobertos no início dos anos 2000. Investigações recentes desses anéis de gelo resultaram em uma explicação plausível, mas ainda há muito a aprender sobre esses recursos incomuns.
Um ano depois, a equipe localizou outro redemoinho, que migrou 6 quilômetros da posição original.

Não foi detectado nenhum anel de gelo acima do redemoinho. O estudo indica que não houve tempo suficiente para a ocorrência do fenômeno.
Em 2019, no entanto, os cientistas identificaram um anel de gelo que se moveu 9 quilômetros da posição inicial. Com isso, os pesquisadores concluíram que esses redemoinhos quentes são a principal causa dos anéis de gelo.

“Os resultados de nossas pesquisas de campo mostram que, antes e durante a manifestação do anel de gelo, há redemoinhos quentes que circulam no sentido horário sob a cobertura de gelo”, disse Alexei Kouraev, membro da equipe e hidrologista da Universidade de Toulouse, em uma publicação do Observatório da Terra da Nasa.

“No centro do redemoinho, o gelo não derrete – mesmo que a água esteja quente – porque as correntes são fracas. Mas no limite do redemoinho, as correntes são mais fortes e a água mais quente leva ao derretimento rápido”, completa.

No caso de lago Baikal, na Sibéria, os cientistas defendem que os redemoinhos são resultado da ação do vento da Baía Barguzin sobre a água do lago. Eles acreditam que processos semelhantes acontecem em outros locais, onde anéis de gelo já foram identificados.

Apesar da nova descoberta, muitos estudos ainda são necessários para desvendar mais mistérios sobre os anéis de gelo.
 

Anéis de gelo como esse parecem ser exclusivos do Lago Baikal e do vizinho Lago Hovsgol na Mongólia, bem como do Lago Teletskoye, outro lago russo a cerca de 1300 quilômetros a oeste de Baikal. 
Mas é inteiramente possível que eles existam em outros lagos e apenas não foram observados ainda. 
Sua aparência tende a ser imprevisível, tanto em termos de tempo quanto de local.

Os anéis de gelo foram atribuídos a inúmeras causas, incluindo efeitos atmosféricos ou biológicos, mentiras elaboradas e até atividades de alienígenas. Uma teoria popular sugere que os anéis de gelo se formaram a partir do vazamento de gás, o metano, que borbulha do fundo do lago. 

Os anéis, no entanto, foram observados em partes rasas do lago, onde as fugas de gás são improváveis.
Para chegar ao fundo desse mistério, os autores do novo estudo – uma equipe colaborativa da França, Rússia e Mongólia – organizaram expedições de campo ao lago Baikal durante os invernos de 2016 e 2017 e estudaram imagens de satélite de infravermelho térmico dos anéis de gelo.

A equipe fez buracos perto dos anéis de gelo e colocaram sensores capazes de medir a temperatura da água em profundidades que atingiam 200 metros. As medições foram realizadas duas vezes a cada inverno, uma em fevereiro e outra em março.
Isso provou ser um trabalho perigoso. Em 16 de março de 2016, a camada de gelo começou a desmoronar embaixo da van, exigindo que o motorista e os passageiros fossem resgatados. Aconteceu novamente apenas dois dias depois.

Esquerda: um veículo preso no gelo ao longo da fronteira oriental de um anel. Direita: um pesquisador explorando um anel a pé. Imagem: A. Beketov/A. Sukenv/www.icerings.org
Em fevereiro de 2016, os pesquisadores, que se autodenominavam A Sociedade dos Anéis de Gelo, detectaram um redemoinho – onde a água se movia em um movimento circular – a uma profundidade de 45 metros sob um anel de gelo. 

Essa descoberta forneceu à equipe uma visão em primeira mão das condições do gelo durante o estágio final da formação dos anéis. Verificou-se que a água no redemoinho era cerca de 1 a 2 graus Celsius mais quente que a água ao redor, e levou cerca de 3 dias para o redemoinho fazer uma rotação completa.
Um ano depois, a equipe encontrou outro redemoinho, que migrou 6 quilômetros de sua posição original até o final de março. Nenhum anel de gelo foi visto acima do redemoinho, provavelmente porque não havia passado tempo suficiente para um anel se formar acima dele. 

Uma coisa semelhante foi descoberta em 2019, quando um anel se moveu 9 quilômetros de sua posição inicial. As descobertas levaram os pesquisadores a acreditar que os redemoinhos quentes são a principal causa dos anéis de gelo.

“Os resultados de nossas pesquisas de campo mostram que, antes e durante a manifestação do anel de gelo, há redemoinhos quentes que circulam no sentido horário sob a cobertura de gelo”, disse Alexei Kouraev, membro da equipe e hidrologista da Universidade de Toulouse, em uma recente publicação do Observatório da Terra da NASA. “No centro do redemoinho, o gelo não derrete – mesmo que a água esteja quente – porque as correntes são fracas. Mas no limite do redemoinho, as correntes são mais fortes e a água mais quente leva ao derretimento rápido”.

O desenvolvimento do anel de gelo, de acordo com a nova pesquisa, começa no outono antes do lago ser congelado. Os redemoinhos são formados por fluxos de água agitados pelo vento da Baía Barguzin até a região central do lago. Os cientistas suspeitam que um processo semelhante esteja acontecendo em outros lagos onde anéis de gelo se formam.

Mais pesquisas serão necessárias para elucidar completamente a causa desses anéis de gelo, mas este último estudo oferece uma explicação interessante. Dito isto, muitos mistérios permanecem, como por que os redemoinhos têm uma forma convexa – uma característica que normalmente é vista nos redemoinhos do oceano, mas não nos lagos. Pesquisas futuras também terão que levar em consideração a forma da costa, pois isso parece exercer um papel importante na maneira como os redemoinhos se movem.

Em termos de outras descobertas, os cientistas encontraram fotos de satélite dos anéis de gelo que datam da década de 1960, portanto essas estruturas não são um fenômeno novo. Mesmo existindo há um tempo, eles ainda mostram que o lago Baikal continua sendo um dos lugares mais legais do planeta. Espero que possamos aprender mais sobre esses anéis de gelo enigmáticos em breve – e não apenas pela a ciência. 

Os moradores locais costumam dirigir no lago durante os meses de inverno, e esses anéis de gelo representam um risco real para os veículos. Talvez os relatórios de tráfego futuros destaquem a presença de anéis de gelo perigosos e seu gelo fino associado.

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