10/10/2021 às 11h09min - Atualizada em 10/10/2021 às 11h09min

O aumento do potencial nuclear da China é de tirar o fôlego e o sono dos EUA

A China continua fortalecendo o potencial militar espacial, apesar de seu posicionamento público contra o uso bélico do espaço. É amplamente sabido que a China não honra suas promessas, conforme evidenciado por, entre outras coisas, militarização de ilhas artificiais no Mar do Sul da China ou a violenta repressão em Hong Kong em violação do tratado registrado pela ONU sobre o território.

Cristina Barroso
Gatestone Institute
(REPRODUÇÃO)
A China está multiplicando significativamente seu potencial de armamentos nucleares. Recentemente inúmeros relatórios mostraram que a China está construindo 120 silos de mísseis para armazenamento de mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs) perto de Yumen em Gansu, outros 110 silos perto de Hami na parte oriental da região de Xinjian e mais 40 silos em Ordos na Mongólia Interior. Os ICBMs são mísseis com alcance mínimo de 5.500 quilômetros, projetados acima de tudo para o lançamento de armas nucleares.
Embora a política nuclear oficial da China seja de "mínima dissuasão" e de "política de não ser o primeiro a usar" (a bomba atômica), não há razão para a comunidade internacional confiar nas doutrinas oficialmente comunicadas. A China continua fortalecendo o potencial militar espacial, apesar de seu posicionamento público contra o uso bélico do espaço. É amplamente sabido que a China não honra suas promessas, conforme evidenciado por, entre outras coisas, militarização de ilhas artificiais no Mar do Sul da China ou a violenta repressão em Hong Kong em violação do tratado registrado pela ONU sobre o território.

"A construção dos silos em Yumen e Hami constitui a maior expansão do arsenal nuclear chinês que se tem notícia," de acordo com um relatório de Matt Korda e Hans Kristensen, da Federação de Cientistas Americanos sobre o campo de Hami. "No cômputo geral... as descobertas indicam que a China pode estar construindo cerca de 300 novos silos para o armazenamento de mísseis", salientaram eles em setembro.

"O número de silos de mísseis aparentemente em construção é semelhante ao número total de ogivas nucleares do atual estoque chinês, excedendo o número de silos de mísseis operados pela Rússia, se aproximando do número de silos operados pelos Estados Unidos, compreendendo a maior construção de silos desde que os Estados Unidos e a Rússia estabeleceram suas forças de ICBMs durante a Guerra Fria."


Em maio, o Global Times, jornal estatal chinês, asseverou que especialistas militares chineses instaram o governo a aumentar o número de armas nucleares. Song Zhongping, especialista militar chinês e comentarista de TV, ressaltou ao Global Times:

"ponderando que os EUA consideram a China seu principal inimigo imaginário, a China precisa aumentar a quantidade e a qualidade das armas nucleares, em especial mísseis balísticos lançados por submarinos, para proteger efetivamente a segurança nacional, soberania e interesses para o desenvolvimento."


Também de acordo com o Global Times, "especialistas militares ressaltaram que a China deveria aumentar o número de mísseis balísticos intercontinentais (ICBM) mais avançados, os DF-41..." Os lançadores móveis, contam com um alcance operacional de 15 mil km, fazendo com que possam atingir os EUA e, segundo consta, carregar 10 ogivas nucleares.

Outra coisa importante também é o que Song Zhongping salientou ao Global Times, que a China está fortalecendo a dissuasão nuclear estratégica baseada no mar. Ele acrescentou que seu míssil balístico lançado por submarino (SLBM) mais avançado poderia efetivamente conter a ameaça dos EUA.
Desnecessário dizer que o que a RPC (República Popular da China) considera uma "ameaça", assim como a palavra "imaginário" acima, podem ser altamente subjetivas.

A última geração do SLBM (míssil balístico lançado de submarino) da China, o JL-3, ao que consta tem um alcance de mais de 10 mil quilômetros, o que significa que pode atingir diferentes regiões continentais dos Estados Unidos, dependendo da localização do submarino. O míssil, uma atualização do JL-2, ainda não se encontra em estado operacional, mas já foi testado três vezes. A China está trabalhando no submarino de próxima geração, o Submarino Classe 096, imbuído de transportar até 24 mísseis JL-3. A China apresentou sua tecnologia de ponta em submarino com propulsão nuclear, o Type 094A, no aniversário de 72 anos da Marinha do PLA (Exército Popular de Libertação da China) ocorrido em maio.

Segundo um relatório recente do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais:

"caso o míssil seja lançado de águas próximas à China, o JL-2 teria alcance suficiente para atingir potências nucleares da região, como Rússia e Índia, mas não para alcançar o território continental dos Estados Unidos. Poderia, no entanto, ameaçar Guam, Havaí e Alasca."


O Secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, mostrou preocupação com o aparente engrandecimento nuclear da China no recém concluído Fórum Regional da ASEAN (Associação das Nações do Sudeste da Ásia). O porta-voz do Departamento de Estado, Ned Price realçou o seguinte após a reunião:

"o secretário ... frisou profunda preocupação com o rápido crescimento do arsenal nuclear da RPC (República Popular da China}, destacando que Pequim se desviou drasticamente da sua estratégia nuclear de décadas baseada em mínima dissuasão."


Em agosto o almirante Charles Richard, comandante do Comando Estratégico dos Estados Unidos, alertou:

"o crescimento explosivo da China e a modernização de suas forças nucleares e convencionais são de tirar o fôlego. Sem rodeios, este termo, de tirar o fôlego, não é o bastante... Tem havido muita especulação por aí afora sobre o porquê deles terem entrado nessa empreitada. Agora eu só quero dizer que realmente não importa o porquê... O que importa é que eles estão avolumando a capacidade de levar a efeito qualquer estratégia de uso nuclear plausível, a última peça do quebra-cabeça das forças armadas capazes de coerção."


Embora as autoridades chinesas não tenham abordado as declarações do Global Times, conhecido por refletir a posição oficial de Pequim, que vem publicando uma série de artigos nos quais aborda o assunto. Em um artigo, publicado no final de julho, o Global Times concluiu:

"os americanos já deveriam estar cansados de saber, tanto quanto os chineses, qual o patamar de energia nuclear que a China realmente precisa montar. Seria uma força nuclear forte o suficiente para fazer os EUA, dos militares ao governo, tremerem na base... A dinâmica do equilíbrio será alcançada quando as elites radicais nos EUA perderem completamente a coragem de sequer pensar em usar armas nucleares contra a China e quando toda a sociedade americana estiver plenamente ciente de que a China é 'intocável' em termos de poderio militar".


"Não há informações de Pequim se o país está incrementando o tamanho do programa nuclear em face de uma ameaça realista de Washington", escreveu o editor-chefe Hu Xijin do Global Times ' em um trabalho recente.

"Mas, ainda que fosse este o caso, não teria nada a ver com os países do sudeste asiático nem com o Japão e nem com a Austrália, porque a política nuclear da China também tem um firme compromisso de não usar ou de ameaçar usar armas nucleares contra qualquer país que tenha armas nucleares. Uma vez que a China fortaleça substancialmente suas forças nucleares, o único propósito seria deter os EUA... temos que estar preparados para a possibilidade de que uma guerra possa eventualmente ocorrer no Estreito de Taiwan ou no Mar do Sul da China."


Em postagens de mídia social, em maio de 2020, de acordo com o Asia Times, Hu Xijin, pediu abertamente às forças armadas da China que mais do que tripliquem seu armazenamento de bombas e ogivas nucleares para mil artefatos.

A escalada nuclear da China deve ser vista no contexto da ambição do Partido Comunista Chinês de ter, nas próprias palavras do presidente Xi Jinping, "forças armadas de prestígio mundial", bem como no contexto da sua ambição de alcançar o domínio global.

O Pentágono escreveu em seu extensivo relatório de 2020 sobre o poder militar da China:

"embora o PCC não tenha esclarecido o que significa forças armadas de 'prestígio mundial' no contexto da estratégia nacional da RPC, é provável que Pequim procure desenvolver forças armadas que sejam iguais senão, em certos casos, superiores às dos EUA ou de qualquer outra grande potência que a RPC considere uma ameaça."


Conforme o Center for American Progress observou em 2019:

"em junho de 2018, logo após as retiradas do acordo nuclear com o Irã e do Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas pelo governo Trump, o presidente Xi fez um importante discurso de política externa no qual afirmou que a China irá 'liderar a reforma do sistema de governança global'. O discurso marcou o primeiro distanciamento oficial de Pequim do princípio de "jamais reivindicar liderança", estabelecido por Deng Xiaoping em 1989 ao delinear a estratégia de sobrevivência do regime pós-Tiananmen... Daqui para frente, a comunidade internacional deverá esperar que as ambições e atividades da China aumentem substancialmente, particularmente se os Estados Unidos continuarem a se desvencilhar da arena multilateral e fornecer o máximo de espaço de manobra."

Tal ambição não faz muito sentido prático, a menos que a China alcance uma paridade nuclear mínima em relação aos EUA. Embora a política nuclear oficial da China seja de "mínima dissuasão" e de "política de não ser o primeiro a usar", não há razão para a comunidade internacional confiar nas doutrinas oficialmente comunicadas. A China continua fortalecendo o potencial militar espacial, apesar de seu posicionamento público contra o uso bélico do espaço. É amplamente sabido que a China não honra suas promessas, conforme evidenciado por, entre outras coisas, a militarização de ilhas artificiais no Mar do Sul da China ou a violenta repressão em Hong Kong em violação do tratado registrado pela ONU sobre o território. De acordo com o almirante Charles Richard, levando-se em conta todos os esforços de modernização da China, "o que se vê não tem nada a ver com uma postura de dissuasão mínima".

"As atitudes dos chineses há muito batem de frente com a postura mais agressiva e não com a política oficial, é preciso ficar de olho no que eles fazem, não no que dizem... A China acertou na mosca, não dá para coagir um par, em outras palavras, nós, a partir de uma postura dissuasora mínima."


Judith Bergman é colunista, advogada e analista política, ilustre Senior Fellow do Gatestone Institute.
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