29/09/2021 às 19h23min - Atualizada em 29/09/2021 às 19h23min

Crise energética global traz apagões na China e conta deluz recorde na Europa

Disparada do preço de petróleo, carvão e gás com incapacidade de atender demanda mergulham o mundo em uma crise energética que terá reflexos na economia brasileira e na política de redução de emissões de gases que causam as mudanças climáticas

Luiz Custodio
metsul.com
O brasileiro se assusta com a subida da conta da luz pela crise hídrica, mas o preço da energia dispara a níveis recordes e alarmantes em outras partes do mundo por um cenário extremamente complexo que envolve, dentre outros fatores, incapacidade de atender a demanda, medidas de restrição ao uso de combustíveis fósseis e cotações nas alturas de carvão e gás natural. As maiores economias do planeta começam a sentir duramente o impacto.

A China, por exemplo, já está com racionamento de luz parando fábricas por todo o país. A crise na Europa é um presságio de problemas para o resto do planeta, já que a escassez de energia no continente traz avisos de apagões com fábricas europeias sendo forçadas a fechar.

EUROPA
Os preços de referência europeus para o gás natural aumentaram 500% em apenas seis meses e seguem disparando, com a Agência Internacional de Energia (AIE) identificando uma série de fatores por trás do aumento. Do lado da demanda, a recuperação econômica global das paralisações da pandemia aumentou o uso de gás enquanto os estoques ficaram baixos após um longo e frio inverno que levou os europeus a aquecerem mais suas casas.

Os especialistas em energia destacam duas razões para o aumento da luz: um aumento de 80% neste ano nos preços das licenças de emissão de carbono, à medida que a União Europeia aumenta suas ambições climáticas para 2030, e os efeitos indiretos do carvão e gás mais caros usados ​​para gerar energia. A situação pode piorar ainda mais com o inverno chegando neste final de ano. A IEA alertou que “o mercado europeu de gás pode muito bem enfrentar mais testes de estresse de interrupções não planejadas sob fortes períodos de frio, especialmente se ocorrerem no final do inverno”.

O órgão com sede em Paris pediu na terça-feira à Rússia que forneça mais gás para a Europa, enquanto Moscou enfrenta acusações de que está se segurando até que um novo e polêmico gasoduto para a Alemanha receba luz verde dos reguladores para começar a operar. A secretária de Energia dos Estados Unidos, Jennifer Granholm, atacou na quarta-feira “jogadores que podem estar manipulando o fornecimento para se beneficiarem”, enquanto não citava a Rússia.

Na Espanha, um imposto especial sobre a eletricidade será reduzido para empresas e consumidores, enquanto a França emitirá um cupom de energia de 100 euros para quase seis milhões de famílias menos abastadas.

Portugal interveio sobre os preços da eletricidade e a Itália está a considerar uma medida semelhante. Mas, embora a Comissão Europeia diga que está em negociações com os Estados-membros, não houve nenhuma ação de Bruxelas até agora diante da grave crise energética que se espalha pelo continente. Os preços da energia estão subindo também nos Estados Unidos, onde alguns setores estão nervosos, apesar da medida de proteção proporcionada pela produção doméstica de gás de xisto.

CHINA
A situação energética é muito grave na China com pelo menos 20 províncias e regiões chinesas que representam mais de 66% do PIB do país anunciando corte de luz. A província de Guangdong, o centro industrial do Sul chinês, está cortando 10% de sua demanda de energia em horas de pico. Reduções de energia em todo o país causadas por muitos fatores, incluindo um forte salto nos preços do carvão e aumento da demanda, levaram a efeitos colaterais em fábricas chinesas de todos os tipos, com alguns cortes na produção ou paralisação total da produção.

Especialistas da indústria preveem que a situação pode piorar com a aproximação do inverno. As interrupções na produção trazidas por cortes de energia desafiam a produção das fábricas e os especialistas acreditam que as autoridades chinesas irão lançar novas medidas para fazer frente à crise, incluindo um enfrentamento aos altos preços do carvão para garantir um fornecimento estável de eletricidade.

Uma fábrica têxtil com sede na província de Jiangsu, no Leste da China, recebeu um aviso das autoridades locais sobre cortes de energia em 21 de setembro. Ela não terá energia novamente até 7 de outubro ou mais tarde. Há mais de 100 empresas no distrito de Dafeng, cidade de Yantian, província de Jiangsu, enfrentando situação semelhante. Como resultado da recuperação econômica, o uso total de eletricidade no primeiro semestre do ano aumentou mais de 16% com relação ao ano anterior, estabelecendo um novo recorde por muitos anos.

Devido à demanda, os preços das commodities e matérias-primas para indústrias básicas, como carvão, aço e petróleo bruto, aumentaram em todo o mundo.

Isso fez com que os preços da eletricidade subissem e “agora é bastante comum que as usinas movidas a carvão percam dinheiro ao gerar eletricidade”, disse o analista-chefe de uma empresa de energia chinesa. “Alguns estão até tentando não gerar eletricidade para conter as perdas econômicas”, afirmou.


Os especialistas da indústria preveem que a situação pode piorar antes de melhorar, já que os estoques de algumas usinas são baixos enquanto o inverno se aproxima rapidamente. Dado que o abastecimento de energia elétrica fica mais restrito no inverno, a fim de garantir o fornecimento de energia na estação que demanda aquecimento, a Administração Nacional de Energia realizou recentemente uma reunião para aumentar a produção de carvão e gás natural como garantia de abastecimento neste próximo inverno. Em Dongguan, o centro de manufatura na província de Guangdong, Sul da China, a escassez de energia colocou empresas como a Dongguan Yuhong Wood Industry em uma situação difícil.

As fábricas de processamento de madeira e aço da empresa enfrentam limites no uso de eletricidade. A produção é proibida das 20h às 22h, e a eletricidade deve ser reservada para sustentar a vida diária da população. O trabalho só pode ser feito depois das 22h, mas pode não ser seguro trabalhar tão tarde da noite, portanto, o total de horas de trabalho foi reduzido. Com a oferta reduzida e a carga (demanda) recorde, os governos locais pediram a algumas indústrias que reduzissem o consumo. Guangdong divulgou um anúncio no sábado, apelando aos usuários da indústria terciária, como agências governamentais, instituições, shoppings, hotéis, restaurantes e locais de entretenimento a conservar energia, especialmente durante os horários de pico. O anúncio também pediu que as pessoas repensem o uso de ar-condicionado. Com os altos preços do carvão e a escassez de eletricidade e carvão, também há escassez de eletricidade no Nordeste da China.

O racionamento de energia começou em muitos lugares na última quinta-feira. Toda a rede elétrica da região está em risco de colapso e a energia residencial está sendo limitada.

ÍNDIA
De acordo com a Bloomberg, os estoques de carvão na Índia caíram para o nível mais baixo em quase três anos, colocando mais da metade da capacidade de geração a carvão do país em risco de interrupções, o que pode levar o país a adotar racionamento de luz com cortes de energia para a população e a indústria. As fortes chuvas nas maiores regiões de mineração da Índia pioraram a crise de abastecimento de carvão do país.

Minas inundadas e estradas alagadas reduziram as operações da mineradora estatal Coal India Ltd., de acordo com o diretor técnico Binay Dayal, obstruindo o fornecimento de usinas de energia. Com isso, os estoques de combustível caíram para 9,3 milhões de toneladas, o menor desde outubro de 2018.

IMPACTOS GLOBAIS E NO BRASIL

“É chocante é chocante a rapidez com que isso saiu do controle”, resumiu Adam Button, analista de câmbio chefe e editor da Forex, especializada em mercados. Segundo o analista, “a velocidade e intensidade da crise de energia são impressionantes”. De acordo com Button, “no momento é difícil até mesmo manter acompanhar todos os problemas de energia do mundo”. “Esta é uma crise que vi se formando, mas estou continuamente surpreso com o quão forte ela está atingindo”, resumiu.


O professor de economia Cristiano Costa, da Unisinos, em entrevista para MetSul, explicou que há um “desbalanceamento” na geração de energia que tem se manifestado de diversas formas e tem origem em várias causas. Segundo ele, no Brasil a energia vem subindo devido à falta de chuvas, o que demanda o acionamento de termelétricas que, além de poluírem mais, custam muito mais caro. Os preços são repassados diretamente aos consumidores, disse. Além disto, diz Cristiano Costa, o real enfraquecido juntamente com a alta do preço do barril de petróleo tem elevado o preço dos combustíveis.

O cenário não deve mudar muito até o fim do ano.

“Podemos dizer que, diante de sua matriz energética, o preço da energia no Brasil é extremamente dependente das condições climática, mas as variações dos preços da energia e combustíveis ao redor do mundo possuem múltiplas causas”, diz. O professor e doutor em Economia pela Universidade da Pensilvânia (EUA) enfatiza que na Europa dois componentes catapultaram os preços.


Na Inglaterra, as consequências dos Brexit, gerando descasamentos de oferta e demanda de produtos têm levado à falta de dióxido de carbono que levar à falta proteínas e derivados. “As condições climáticas são parte importante, mas lá o que pesa mais é a questão da adaptação ao Brexit”, resume.

Na Europa continental, destaca, o preço futuro do gás natural que em março estava US$ 2,40 hoje pela manhã subia mais 10% e chegava aos US$ 6,27. “É uma consequência das tempestades de verão, da chegada do inverno e de uma restrição global de oferta de energia fóssil. A mudança da matriz energética em direção à termelétricas encarece a produção”, assinala. Conforme Cristiano Costa, tanto nos Estados Unidos quanto no Canadá os preços estão nos maiores patamares em anos. “A proximidade do inverno assusta os consumidores e os investidores pois não há perspectiva de queda no curto prazo”, sintetiza.
Fonte

 

Participe:

 

Além de compartilhar este arquigo, você pode ajudar de outra forma fazendo com que nosso trabalho chegue a mais pessoas clicando AQUI


Link
Tags »
Notícias Relacionadas »
Comentários »