16/07/2020 às 21h10min - Atualizada em 16/07/2020 às 21h10min

Allan dos Santos, do Terça Livre, entrevista o fundador do Parler

Vinicius Mariano
Portal Terça Livre
John Matze, CEO e fundador da rede social Parler

O jornalista Allan dos Santos entrevistou, com exclusividade, John Matze, CEO da plataforma Parler, a rede social conservadora que está conquistando o mundo por prometer liberdade de expressão aos seus usuários. Matze é formado em Ciência da Computação pela Universidade de Denver, nos Estados Unidos. Antes de criar a plataforma, Matze trabalhou como desenvolvedor de sistemas para grandes empresas, como a gigante Amazon.

Matze explica que o Parler foi criado para promover a liberdade de expressão e acabar com a censura das redes sociais, todas elas simpáticas à esquerda e que limitam a discussão às pautas progressistas. “Nós acreditamos que todo mundo deveria ter direito de compartilhar sua opinião sobre o mundo. Deveria haver debate”, afirmou Matze. “Acreditamos que se você fala sobre as coisas, tudo vai melhorar e podemos resolver os problemas, ao invés de nos escondermos atrás da censura, que é autoritária e errada”, completou.

O crescimento da plataforma Parler em todo o mundo chama atenção. Até os presidentes dos Estados Unidos e Brasil aderiram à rede social. Questionado se aceitaria vender a plataforma para gigantes de tecnologia, Matze foi taxativo: “seremos sempre focados na liberdade de expressão. Essa é a peça mais importante. Existem algumas empresas para quem jamais venderíamos o Parler, ponto. Por nenhuma quantidade de dinheiro”.

Confira a entrevista de Matze:

Allan - O que te inspirou a criar essa plataforma?

John - Nós vimos um problema em 2016, quando muitos jornalistas e canais de notícias estavam perdendo receita, porque essas empresas de tecnologia estavam mudando algoritmos. E isso progrediu, não só para canais de notícias, mas para pessoas comuns, que estavam perdendo a sua voz. Elas estavam sendo censuradas por suas visões, pelo que estavam pensando e pelo que está acontecendo no mundo. Então, nós acreditamos que todo mundo deveria ter direito de compartilhar sua opinião sobre o mundo. Deveria haver debate. Acreditamos que se você fala sobre as coisas, tudo vai melhorar e podemos resolver os problemas, ao invés de nos escondermos atrás da censura, que é autoritária e errada.

Allan - Bem, é o tipo de situação que estamos enfrentando no Brasil também. Tenho aqui algumas perguntas que foram feitas por nossos seguidores no Parler. A primeira é: quando teremos uma versão em português para o Parler? As pessoas estão me perguntando bastante. “Eu não sei inglês, não entendo nada aqui, por favor, coloquem em português!” Você tem uma data ou algo do tipo?

John - Sairá para Iphone e web primeiro, espero que em uma semana ou duas, mas Android vai demorar mais. Nós ainda não temos suporte de idiomas no Android além do inglês. Mas para Iphone será logo, e também a versão web.

Allan - Depois disso, privacidade. É um tópico muito complicado para nós. Estamos sofrendo certa perseguição aqui, por parte dos políticos. Temos um Congresso lutando contra “fake news”, ou o que eles chamam de “fake news”, tentando silenciar as vozes conservadoras da internet.

John - Dois pontos. Um é que, do ponto de vista de privacidade, nós não compartilhamos dados. Não compartilhamos nenhum dado sobre as pessoas e mantemos isso privado. Quaisquer dados que obtenhamos, nós tentamos tornar inutilizáveis, para que, mesmo se de alguma forma, pessoas conseguissem a posse dos dados, seriam inúteis para elas. Assim, quando as pessoas recebem “verificado” no Parler, estes dados são ilegíveis, uma vez que o processo de verificação está completo. Para que as pessoas não tenham acesso a esses dados. Ponto dois: quando se fala de fake news, nós acreditamos que a definição existe só para sufocar a fala das pessoas. Se você olhar, basicamente toda vez que eles dizem “isso é fake news”, é porque é uma coisa guiada por política, e eles querem calar as pessoas por acreditarem em algo. Então eles dizem: “Esta pessoa é um ‘especialista’, e ele te dirá o que você deve pensar e no que acreditar”. Isso é errado! Nós acreditamos que as pessoas devem falar sobre o que elas acham que é verdadeiro ou falso, e não depender de gigantes autoritários para dizer às pessoas o que dizer ou em que acreditar.

Allan - Sim. Sobre a verificação, é difícil para os brasileiros. Eu tenho passaporte, mas muitos brasileiros não têm. Então, eles perguntaram se há qualquer possibilidade de ser verificado com documentos brasileiros, como identidade brasileira ou algo do tipo?

John - Usem o que tiverem, adoraria receber sugestões, para que possamos melhorar. Porque passaportes são o padrão, mas talvez possamos encontrar outra ferramenta para ajudar as pessoas a serem verificadas.

Allan - Ok, isso é muito bom. Eu posso te dizer uma agora mesmo. O CPF é um documento que se tem no Brasil, uma identidade brasileira. Isso pode ajudar bastante. A terceira pergunta é sobre o shadowban. As pessoas estão perguntando: “O Parler é mesmo livre de shadowban? Tem alguma possibilidade de termos essa ferramenta, vinda da empresa? Ou de reduzir o que compartilhamos, ou quantos likes ou “ecos”...? Estou me acostumando com os nomes…

John - Não, nós não fazemos nada disso. Temos um algoritmo muito simples, é cronológico. E cria alguns problemas, por exemplo, tem uma moda nos EUA em que as pessoas fazem o “siga para ser seguido”. Não faça isso, apenas siga pessoas em quem você está interessado, e o seu conteúdo será alcançado por todo mundo. Não tem algorítmo cheio de firula e que fica atrapalhando. Não tem nada que façamos para interferir, é tudo orgânico. Nós acreditamos no conceito de uma praça pública, onde estamos te dando ferramentas, e cabe à sociedade, às pessoas decidirem o que fazer com essas ferramentas. E nós não interferimos de nenhuma forma.

Allan - Isso significa que não funciona seguir muitos e ter muitos seguidores, porque as pessoas não serão envolvidas no que você está postando. Isso não funciona, certo?

John - Sim, nós não nos envolvemos. Se você coleta muitos seguidores e está ficando popular, ótimo! Bom para você. Mas se não for o caso, se não gostarem de sua mensagem, então as pessoas podem não chegar até você, e pelo menos você vai saber. Existe um grande problema com empresas de mídia social. Não é o nosso caso, mas outras empresas, elas são muito elitistas. Elas decidem que existe um seleto grupo de pessoas, e essas pessoas recebem um alcance maior. Nós não acreditamos nisso, qualquer um pode viralizar no Parler. Porque qualquer um pode dar “eco”, qualquer um pode engajar. E é bem legal de ver o que se torna popular. Suas ideias podem se tornar populares, mesmo que você não seja da “elite”.

Allan - Isso é muito bom! Para mim, seria a primeira vez, porque eu tenho shadowban no Facebook, Twitter, Youtube e Instagram. Então, eu tenho gostado bastante (do Parler). Lives, isso é algo que os brasileiros adoram. As pessoas vão reclamar que eu não estou fazendo live dessa entrevista. Eu sei o que eles vão dizer: “Eu não acredito que você não fez uma live disso, porque eu gostaria de fazer umas perguntas ao vivo”. Mas lives são algo que eu realmente adoro. Gosto dessas live de uma, duas ou três horas de duração, falando com minha audiência, e tentar receber os comentários dos meus seguidores. É difícil, porque são muitos comentários, mas as lives são algo que realmente adoramos no Brasil. Há alguma chance de termos lives no Parler?

John - Nós eventualmente teremos, estamos sendo ativamente procurados por empresas que querem que modifiquemos nossas regras e orientações de comunidade. Então, empresas de tecnologia normais poderiam dizer “eu gostaria de fazer lives”, e eles pegam o telefone e ligam para uma empresa ou acham na internet, e eles conseguem uma parceria para a parte de lives. Nós temos que construir a nossa própria conta, porque toda vez que contatamos parcerias para lives eles dizem “Contanto que vocês expulsem quem nós queremos, nós trabalharemos com vocês”. E porque nós nos recusamos a fazer isso, nós temos que construir do zero, e isso demora mais.

Allan - Ah, isso é verdade. Grupos e páginas: eu vi algumas pessoas perguntando sobre grupos. Eu não gosto tanto, porque não tenho tempo para participar de fóruns e coisas do tipo. Mas sobre grupos e páginas, você tem algum plano para isso no Parler?

John - Eu gosto da ideia de grupos. Não estou familiarizado com “páginas”, mas gosto muito da ideia de grupos, eles podem ser muito, muito úteis. Então, nós vamos construir uma solução para grupos eventualmente.

Allan - Isso vai ser divertido, porque grupos são legais, eu gosto de grupos. Só não tenho muito tempo para participar de todos eles. Eu me lembro, você já ouviu falar do Orkut? Do Google?

John - Não…

Allan - Era uma mídia social muito forte no Brasil e na Índia, mas não na América. E nós tínhamos muitos grupos lá, fóruns e debates muito longos. Debates que você poderia tipo, uma semana, só para seguir todos os posts, era engraçado, era muito bom. (Informação irrelevante e frase mal construída. Sugiro cortar)

John - Deveríamos pegar um link disso para investigar e incorporar algumas ideias. Mas só para ter em mente, vai levar um tempo para conseguir fazer todas essas coisas, porque estamos focando muito em crescimento para, basicamente, acomodarmos todas as novas pessoas. Então, estamos focados na escala, o que significa que o desenvolvimento de novas funções vai levar um tempo. Mas enquanto as pessoas estiverem ativas na plataforma, e enquanto continuarmos crescendo, torna-se mais fácil construir essas funções, porque teremos recursos para fazê-los.

Allan - Ótimo! Quantos usuários brasileiros temos agora, mais ou menos?

John - Eu não sei quantos brasileiros, para ser honesto, eu não olhei.

Allan - É, eu estou curioso porque o Brasil é bem envolvido com mídias sociais. Nós temos muitos usuários, um dos maiores canais de Youtube do mundo é daqui. No Twitter também, e eu acredito que vai ser divertido             os americanos vendo…

John - Mas devemos ter muitos. Eu me lembro do primeiro dia, quando brasileiros começaram a entrar, eu notei a bandeira aparecendo nos comentários, e pensei: “O que está acontecendo?” Então, olhei no mapa, nós temos um mapa para ver de onde as pessoas estão entrando, e eu fiquei tipo: “de onde...” Só no primeiro dia foram dez, vinte mil ou algo do tipo. E eu fiquei tipo: “O que? Brasil? Como?”

Allan - Sim, nós somos doidos por mídias sociais. As mídias sociais se tornaram, para nós, um lugar para conversar, e um lugar para escutar as coisas que nós não temos na TV ou no rádio. Então, são o único lugar onde temos liberdade, mais ou menos. No Twitter, Facebook e Youtube, temos mais ou menos liberdade para falar e expressar nossas crenças e todas as outras coisas, e é por isso que as pessoas vão muito para mídias sociais no Brasil. A próxima pergunta. Se alguma “big tech” quiser, no futuro, comprar o Parler e acabar com essa liberdade, você venderia, quer dizer, você colocaria o Parler na mesa para “big techs” e virar um bilionário?

John - Tem uma coisa… Tem duas coisas que queremos enquanto empresa. Número um, e mais importante, para todos os investidores e todo mundo envolvido no Parler, esta é a coisa mais importante: liberdade de expressão e privacidade. Esse é o número um, acima de tudo. Número dois, como uma empresa, queremos fazer dinheiro, é claro. Então, enquanto o número 2 não afetar o número 1, está tudo bem. Mas seremos sempre focados na liberdade de expressão. Essa é a peça mais importante. Existem algumas empresas para quem jamais venderíamos o Parler, ponto. Por nenhuma quantidade de dinheiro.

Allan - Você poderia falar algumas delas?

John - Twitter? (risos)

Allan - Não, não, não. Eu estou brincando, tudo bem. Todos nós sabemos quais empresas fazem “essas coisas”. Agora, eu gostaria de expandir nossa entrevista. Eu fiz todas as perguntas que gostaria, mas gostaria de finalizar, falando com você sobre liberdade. Porque é muito importante para nós, e para o mundo todo, manter a liberdade em primeiro lugar. E nós estamos olhando para todos esses movimentos, todas essas “atitudes” melhor dizendo, vindas de bilionários tentando silenciar as pessoas e não deixando elas compartilharem suas ideias, e isso começou com livros. E depois disso eles realmente baniram todos os jornalistas e intelectuais que falaram alguma verdade que eles não queriam ouvir. E as mídias sociais se tornaram um ótimo lugar para isso. Como você vê a América defendendo liberdade, o Brasil defendendo liberdade, e agora a Bolívia defendendo liberdade, o povo na Venezuela tentando sobreviver e também tentando defender a liberdade contra ditadores. Ditadores ‘formais’, ou ditadores que às vezes as pessoas não consideram que eles realmente o sejam. Como você vê todo esse controle sobre a liberdade de expressão no mundo todo?

John - Eu creio que chega a um certo ponto onde as pessoas - especialmente os ricos, não só os ricos, mas a “elite” - acham que sabem das coisas melhor do que todo mundo e estão tentando suprimir a liberdade de expressão. E parece ser um esforço promovido pelas grandes empresas de tecnologia. Pois acham que são mais inteligentes e melhores do que todo mundo. E eles não acreditam mais na habilidade das pessoas de ter debates e discussões. Isso não é apenas no Brasil ou nos EUA, ou na América do Sul. Isso é internacional! Quer dizer, nós falamos com pessoas ao redor do mundo inteiro que estão dizendo que essas empresas de tecnologia estão tentando dizer para as pessoas o que é ou não verdade. Elas estão tentando dizer para as pessoas o que elas podem ou não falar, o que podem ou não fazer. Eu os chamo de “tecno-fascistas”, porque é errado dizer para as pessoas o que pensar e fazer. E você precisa ter uma discussão aberta, um debate aberto. Eu acredito que o que está acontecendo é que estamos vendo um grande grupo de pessoas tentando afirmar sua autoridade e afirmar seu poder sobre todos no mundo. E isso é errado. E é por isso que queremos promover a liberdade de expressão. Porque todo mundo deveria ser capaz de discutir os problemas. Se você não pode discutir os problemas, você não tem liberdade. Você não tem liberdade de falar.

Allan - Realmente, isso é verdade. Bem, a entrevista foi bem curta, peço desculpas à minha audiência, mas teremos algumas pessoas para traduzir a entrevista. Eu espero que você volte, espero que possamos ter uma conversa longa sobre liberdade de expressão, sobre democracia, sobre todas as coisas que defendemos, sobre liberdade. Esses tópicos são realmente incríveis para espalhar para nossos amigos, e é isso o que queremos fazer aqui no Terça Livre. Então muito obrigado por nos ceder seu tempo e desejamos o melhor para você, e que você se torne um bilionário, mas defendendo a verdade e a liberdade. Muito obrigado, John.


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