20/07/2020 às 19h15min - Atualizada em 20/07/2020 às 19h14min

IDEOLOGIA, EU QUERO UMA PRA MORRER!

Sobre os Cazuzas que deram errado

DO AUTOR
Kaio Lopes
TERRA (REPRODUÇÃO)
Quando Cazuza, no auge de ''Ideologia'', dizia que o seu partido era um coração partido, certamente não era em virtude de um sofrimento prático e plausível, mas tão somente exclamação de um playboy carioca. Ele tinha seus problemas, sem dúvidas. Mas o seu problema maior refletia no espelho do seu quarto. Daí surgiram cânones belíssimos e estribilhos atemporais. Não me entendam mal, galera. Eu sou fã do Cazuza enquanto músico e admiro como ele admitia estar em um ambiente fedorento, mesmo que o próprio, muitas vezes, fosse o odor de que reclamava. 

O fato é que o playboy sabia representar a simplicidade desejada. E o fazia, convenhamos, como ninguém. Foi um John Lennon do seu tempo. Quis a paz, mas não fugiu da guerra. O cara foi guerreiro, enfrentou a AIDS e a cobertura invasiva da imprensa, até mais dolorida esta última do que a primeira, a exemplo da famigerada capa da revista Veja à época. A personalidade do rockeiro suscitou não só seu fenômeno durante a vida e após a morte, mas também todo um fetiche em torno da sua criatura: a fantasia de ser um Cazuza é presença mais constante que a ausência de moral na classe artística brasileira; preferencialmente a fluminense, eu diria.

A diferença, no entanto, está literalmente na gema carioca do ovo nacional: é o caráter. Cazuza teve; seus fetichistas do calçadão se abstiveram de tê-lo. Enquanto o primeiro representava um ''exagerado'' na dualidade entre o personagem do hit e o Agenor fora dele, mas mantendo coerência sobre o que defendia e atacava, os outros encenam um exagero no teatro das ínfimas interpretações e da realidade fazem uma orgia intelectual. 

O palco que os ''novos Cazuzas'' têm, meus amigos, é maior do que o mais espaçoso pelo qual o próprio lutou. E as vozes, despiciendas as qualificações e exigências musicais, ecoam para um público mais ideologizado (porcamente ideologizado) do que a multidão que ressignificou o Rock in Rio ao som do velho e bom Cazuza.

Os heróis dele, como já profetizado, por ele, morreram de overdose: Cazuza pedia uma ideologia pra viver; os seus ''heróis'', tamanho consumo ideológico que fizeram, agora cessam de overdose causada pelo ideal mais fatal que conhecemos: o esquerdismo.
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Crônicas e posições em geral.

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