13/09/2020 às 14h59min - Atualizada em 13/09/2020 às 13h46min

Chegadas e Despedidas

Andrea Wainchtock
            Já escrevi certa vez, sobre ser um imigrante. Como disse naquele texto, acima de tudo, é preciso ser audaz, ter coração forte e saber experimentar o novo. Mas coragem é mesmo a palavra. Não dá para mudar de país e manter os mesmos conceitos que tinha na bolha em que vivia na sua cidade natal. Tudo muda. O mundo se expande.
            Vivendo há quase 5 anos na América, às vezes me sinto como na Música de Milton Nascimento, Encontros e Despedidas. Desde que aqui cheguei, conheci pessoas vindas de quase todos os lugares. Fiz amizades ótimas, embora muitas delas, efêmeras. Conheci gente da Rússia, China, Tailândia, Filipinas, Hungria, Cazaquistão, Turquia, Arábia Saudita, Peru, Chile, Bolívia, Venezuela, Espanha, Alemanha, Suíça... tenho certeza que esqueci algum país aqui. Pessoas ótimas, culturas interessantíssimas, e ainda assim, descobrir que somos todos iguais e queremos mais ou menos as mesmas coisas. Mas assim como elas vieram, se foram. 
            Nesse tempo, é como se estivesse parada nessa estação recebendo de braços abertos os que chegam e dizendo adeus aos que partem. Criando novos laços e deixando os antigos se desfazerem, é assim a vida. Além disso, a Flórida parece ser o lugar em que as pessoas estão sempre em trânsito. Não conheci ninguém que tenha nascido aqui e que também tenha permanecido aqui. O americano tem isso, essa constante mudança caso se faça necessário. Ele vai aonde for preciso, sempre em busca do melhor. Isso, eu aprendi com eles e acho que foi uma boa lição.
            Mas dizer adeus, embora às vezes seja necessário, é doloroso. Muito além das fotos alegres em lugares lindos no Instagram, feitas para dar inveja aos que veem e passar a mensagem “olha como estou bem, como sou sortudo”, muitas vezes escondem a dificuldade de ser imigrante, de se adaptar e das frustrações geradas por uma vida difícil em contraste com tudo o que você deixou para trás. Mesmo para o imigrante legal a vida não é tão fácil. A Imigração tem uma mão de ferro sobre você e todo o processo de legalização é extremamente difícil e muitas vezes injusto. É longo e penoso o caminho para o sonhado Green Card, e até lá, você é o intruso. Não é um lugar confortável para quem tinha uma posição social boa no seu país de origem e beira mesmo ao humilhante.
            E nesse processo de adaptação entre o sonho e a realidade, muitos vão embora, e pelos mais variados motivos. Muitos não se adaptam, muitos não têm sucesso no objetivo traçado, e ultimamente, muitos vistos negados pela Imigração. Então arruma-se tudo, vende-se o que for possível e lá se vai recomeçar tudo de novo, dessa vez em casa. Tem que se ter coragem até para admitir que o sonho não era aquelas coisas, encher o peito de bravura e dizer: eu tentei. Mesmo que os amigos e parentes que vão te receber cochichem entre si que você é um perdedor, mas não sabem eles, que você teve a coragem que lhes falta: você desbravou e foi viver um sonho, e isso fortalece o espírito de todo audaz.
            Por duas vezes essa semana que passou, eu me encontrei sentada a uma mesa rodeada por amigos, alguns deles, estavam se despedindo. Eu estava mais introspectiva e só queria mesmo era olhar. Visualizar aqueles rostos e ouvir suas histórias. Eu não sei quando isso vai acontecer novamente ou mesmo se vai acontecer. Me lembra sempre aquela postagem que vez ou outra vejo no Facebook “Um dia, foi o último dia que você brincou com seus amigos”. E então me pego pensando: será hoje o último dia que estarei na junto a eles? Será que nunca mais os verei? Que dor no peito!
            Bendita seja todas as estradas e todas as encruzilhadas que fizeram nos encontrar, porque dei um pedaço do meu coração a todos vocês! Sejam felizes, audazes aventureiros!
            
 
 
            
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