23/08/2020 às 10h47min - Atualizada em 23/08/2020 às 09h40min

Canalhice tipo exportação

Andrea Wainchtock
kdfrases.com
 
            A primeira coisa que uma pessoa faz ao mudar de país é procurar seus conterrâneos para a adaptação ser mais fácil. Isso acontece com pessoas de todos os povos, até mesmo dentro do país, pessoas de determinadas regiões buscam algo que se identifiquem ou remete ao estado de origem, necessitando daquele sentimento de familiaridade que ajuda a superar o novo.
            O brasileiro tem se espalhado pelo planeta, e não é difícil estar andando em algum lugar no mundo e topar com alguém falando português. Dada nossa mistura genética, que traz genes de quase todas as raças existentes, é fácil se misturar. Brasileiro não tem uma cara, um perfil ou características que o definam. Nós somos muitos em um único povo. Já ouvi dizer que o passaporte brasileiro é um dos mais caros no mercado negro de passaportes falsos exatamente por essa característica: qualquer fisionomia pode ser a de um brasileiro.
            Muitas são as razões de alguém sair do Brasil e ir para o mundo: segurança, emprego, sonhos, aventura e o mesmo o simples ato de fugir. Fugir da polícia no caso. Ou de credores. Quando alguém vem para um país como os EUA ou qualquer um da Europa, vai atrás de melhores condições. A gente tem a fantasia que Estados Unidos e Europa são bastiões da virtude, que tudo funciona as mil maravilhas e que todo crime é punido com o rigor da lei. Não que não seja, em parte, mas a realidade está um pouco longe dessa fantasia. 
            Do mesmo jeito que vem pessoas em busca do sonho da estabilidade financeira e empenhadas em trabalhar para essa realização, vem também uma leva de picaretas em busca de um novo campo para seus golpes. E qual o melhor alvo para expor toda a sua malandragem adquirida no Brasil? Os brasileiros, claro!
            Assim que uma família aporta em terras americanas, principalmente vindo para regiões onde se concentram a maioria das comunidades brasileiras, elas buscam se apoiar de alguma maneira em brasileiros que aqui estão, e é aí que a maioria dos golpes acontecem. 
            É famoso o caso que aconteceu por essas bandas, principalmente na região de Orlando, o Youtuber que fez sucesso mostrando aos brasileiros como a vida nos EUA era muito melhor que no Brasil, e incentivava o público a vir de mala e cuia para cá. Claro, ele oferecia seus conhecimentos em forma de assessoria para ajudar a família a se ajustar aqui. Ele daria todos os “macetes” e te ensinaria a malandragem para ter sucesso nos EUA, e poder mostrar isso nas redes sociais (não resisti espezinhar os “ricos e felizes da internet”). Como brasileiro tem o péssimo hábito de querer se dar bem sempre, o tal influencer conseguiu enganar e tirar o dinheiro de muita gente, e como bom malandro graduado e pós-graduado na malandragem, acabou eleito deputado federal.
            Muito próximo a mim, tive contato com pessoas que mesmo conhecendo do Brasil, após chegar aqui, deram golpe em várias pessoas próximas em busca de dinheiro fácil, prometendo sociedade em negócios fabulosos, para depois ser descoberto que estavam devendo até a alma no Brasil. Vi tantos golpes como esse acontecer que é inevitável fugir de qualquer negócio com brasileiro. Não que não exista americano picareta, existe, mas é impressionante a quantidade de brasileiros aplicando golpes por aqui. 
            Mas recentemente, tive o conhecimento de um falso advogado de imigração que está aplicando vários golpes na região sul da Flórida. Geralmente um advogado formado no Brasil quando vem para cá e se regulariza sua situação imigratória, para atuar na área jurídica faz um curso numa universidade que lhe dá a possibilidade de trabalhar como paralegal. Paralegal é um técnico jurídico que trabalha sob a supervisão de um advogado e é muito comum nos EUA e Canadá. O que acontece é que esses advogados brasileiros licenciados como paralegals aqui, por ter a afinidade com a comunidade e a facilidade da língua abrem escritórios associados com advogados americanos e captam clientes interessados em obter vistos americanos. E é aí que começam muitos golpes.
            Não é realmente necessária a formação acadêmica para ser um paralegal, mas o conhecimento jurídico ajuda. Com a facilidade e o trânsito livre na comunidade brasileira, e claro, sempre sendo portador de uma boa lábia, porque malandro que é malandro assim o é, conseguem ludibriar os advogados, que mesmo que não sejam pessoas inocentes (nunca conheci um advogado assim) não são páreo para tanta canalhice. É claro, não vou inocenta-los da possibilidade desses advogados perceberem o carisma e a facilidade em seduzir seus possíveis clientes com a promessa do greencard fácil, que esses trambiqueiros têm. Mas a comunidade brasileira aqui é grande e com o impedimento da língua que muitos advogados, principalmente os do norte, têm como obstáculo, acredito que os deixem com os limites, digamos, um tanto flexíveis. A famosa vista grossa.
            O que esses advogados não esperam é que eles também sejam alvos de golpes de seus associados. E me desculpe a ironia e um pouco de crueldade: chega a ser engraçado ver advogado levando golpe de malandro. E patético. Por exemplo, com boa vontade e talvez um investigador no Brasil, seria possível puxar a ficha do advogado-boa-pinta-brasileiro e descobrir quantas passagens na polícia o cidadão tem, principalmente por crimes de estelionato.
            A verdade de tudo isso é que é extremamente vergonhoso para os brasileiros de bem constatar que exportamos além de soja, carne e outras commodities, o tipo canalha também. E somos o primeiro alvo. Quando se busca o conforto dos nossos iguais num mundo estranho e às vezes hostil, é que nos tornamos vítimas em potencial desse tipo de algoz, o que obscurece todas as qualidades que também trazemos: a amizade fácil, o sorriso, a capacidade de fazermos muitas coisas ao mesmo tempo, o trabalho duro que muitos sabem empenhar. Uma tristeza!
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Andrea Wainchtock

Andrea Wainchtock

Crônicas da vida na América

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