15/08/2020 às 13h36min - Atualizada em 15/08/2020 às 13h32min

Ode à Renato Russo

Capitalista e não menos sensível às indiferenças, Renato foi diferente

DO AUTOR
Kaio Lopes
(REPRODUÇÃO)
Quando em ''O Descobrimento do Brasil'', meu álbum predileto da Legião Urbana, Renato Russo lançou ''Love In The Afternoon'' e profetizou que ''os bons morrem jovens'', quiçá imaginava sobre sua morte três anos depois. E talvez o fizesse porque ele tinha uma capacidade incomensuráel de perceber os problemas ao redor e entendê-los sob uma perspectiva justa, contundente e realista, entendimento este capaz de torná-lo, dadas as devidas proporções, o maior cantor e compositor do rock oitentista e noventista. Tão evidente quanto sua assertividade notadamente enfeitada pela sua voz e seu violão era sua preocupação com a bondade e a verdade que buscara através das suas poesias: em ''A Montanha Mágica'', o cara fez um paralelo genial entre o romance de Thomas Mann - de título homônimo - e vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1929, e o cruel quotidiano causado pelo narcotráfico mexicano e sua consequente extração da chamada ''papoula do Oriente'' que, nas palavras do mestre, 'és o que ele tinha de suave e o fizeste tão mal'; já em ''A Fábrica'', do homérico álbum ''DOIS'', entre outras coisas, Renato faz referência, sim, às dificuldade enfrentadas pelos trabalhadores, tratando sobre a ''indiferença temperada à ferro e fogo''; por outro lado, no sugestivo ano de 1984, o artista compunha ''Baader-Meinhof Blues'', aludindo ao grupo alemão de caráter marxista e que, na contradição dos seus ideais, não fez aversão ao nazismo antecedente, mas apenas o substituiu à bel-prazer pela utopia comunista.

Ou seja, o senso ideológico de Renato Russo era pautado naquilo conhecido por ele, intimamente ou não. Foi capaz de enxergar os defeitos do metal enquanto o perseguissem com vileza, mas igualmente, com olhos de águia, constatou a impossibilidade do sistema socialista. Inclusive, durante sua épica entrevista concedida à MTV, reiterou ser capitalista. Aliás, com explicitude contextual, ele criticou os pseudos-intelectuais de esquerda quando, acompanhado do baixo absurdo de Renato Rocha, exclamou estar cansado de Marx e Engels em ''Conexão Amazônica'', afirmando que ''alimento pra cabeça nunca vai matar a fome de ninguém''. Vale, porém, à título de imparcialidade jornalística, destacar sua oposição ao Regime Militar através de ''1965 (Duas Tribos)'', a partir de um recado direto contra os exageros do período. 

Contudo, é impossível falar sobre Renato renunciando à mim mesmo. Porque, a propósito, na condição de legionário, me coube assimilar as suas obras e tentar guardar o melhor delas. E o fiz com tamanha cautela e negrita anotação. Concuí, no fim das contas, que não faria sentido eu me abdicar da realidade prática para justificar a teoria impossível. Assim como ele, me afirmo capitalista, sobretudo em sua plenitude, porém, sem contorná-lo com frágeis linhas de perfeição. E tal como tal, me enfatizo anti-comunista. por quanto a consciência empírica e o aprendizado histórico estejam comigo. 
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