06/08/2020 às 15h49min - Atualizada em 06/08/2020 às 15h43min

''O Exército de um homem só''

A representação literária e musical de uma utopia

DO AUTOR
Kaio Lopes
Lula, o ''homem só'', sendo reverenciado pelo seu ''exército'' alienado. (ISTO É - REPRODUÇÃO)
Na literatura, ''O Exército de um homem só'', novela de Moacyr Scliar, publicada na longínqua década de 70, contava a trajetória de Mayer Guinzburg, judeu e recém-chegado da Rússia para Porto Alegre-RS. Como todo pseudo-revolucionário, este não se contentava com a mera e impossível busca pelo universo perfeito, mas se propunha ao incessante dever de tomar pra si a vontade coletiva e exclamá-la ser a ordem natural do curso histórico. Uma vez esquerdista, logo rebelde; o garoto acaba por abandonar sua família e enxerga na casa alheia, aliás, na residência de um dos amigos revoltados, a oportunidade física para pensar no que devia fazer e de que modo convenceria o mundo sobre o próprio mundo. E o inevitável da 'estória' é que Mayer fracassaria... e fracassou!

Após os constantes choques de realidade, o rapaz se ateve ao tradicionalismo familiar e, inclusive, resolveu ignorar o ateísmo de outrora, passando a adotar valores cristãos e não mais a vil ideologia anticristã. Apesar do seu enriquecimento pessoal e até profissional, ele ainda comete o pecado da traição e, em seguida, vê sua empresa falir. Segue-se aí o capítulo final da trama, porém, não é cabível mencioná-lo neste momento. 

Já no espectro musical, a banda gaúcha Engenheiros do Hawaii, em 1990, trouxe de presente em seu disco ''O Papa é Pop'' a versão cantada e devidamente interpretada do livro. Humberto Gessinger, vocalista e um dos compositores da obra (junto à Augusto Licks), na primeira estrofe já adianta: ''Não importa se só tocam o primeiro acorde da canção. A gente escreve o resto em linhas tortas, nas portas da percepção'', aludindo, é claro, à indiferença do soldado novato, metaforicamente falando, ao entendimento e a transmissão popular daquilo por ele defendido. Continua: ''Em paredes de banheiro, nas folhas que o outono leva ao chão. Em livros de história, seremos a memória dos dias que virão. Se é que eles virão'', agora fazendo referência ao comportamento típico de um falso-anarquismo e a pretensão dos seus autores e agentes de se tornarem figuras históricas em nome de um futuro que sequer concebem por si próprios. 

Nos próximos trechos, o musicista revela de que maneira o soldado (até segunda ordem, mantenham-no como protagonista) planeja suas ações, ignorando a necessidade prática para elucidar suas ideias e reforçando sua auto-determinação em defesa de uma massa alheia às suas loucuras: ''Não importa se só tocam o primeiro verso da canção. A gente escreve o resto sem muita pressa, com muita precisão. Nos interessa o que não foi impresso e continua sendo escrito à mão. Escrito à luz de velas, quase na escuridão, longe da multidão''. 

E o estribilho dá voz ao drama homônimo: ''Somos um exército. Um exército de um homem só. No difícil exercício de viver em paz. Somos um exército. Um exército de um homem só. Sem bandeiras, sem fronteiras, pra defender. Pra defender''. Pode ser verificada aí a tentativa de Gessinger em explicar sobre haver, por detrás do coletivismo forçado, um hedonismo individual do soldado.

Dando sequência, na segunda parte da letra, é reforçada a confusão da utopia sobre perspectivas distintas e a negação sobre sua autoria contra eventualidades trágicas suscetíveis à ela: ''Não importa se só tocam o primeiro verso da canção. A gente escreve o resto. E o resto é resto. É falsificação. Sangue falso, bangue-bangue italiano; suíngue falso, turista americano. Livres desta história. A nossa trajetória não precisa explicação. E não tem explicação''.

No final da arte, escancara-se a disposição incomensurável que guia a revolução idealizada. O autor, à dispêndio da realidade plausível e julgando-se isento de juízo moral, ignora as relações hierárquicas, as condições relacionais e as diferenças interpessoais: ''Não interessa o que o bom-senso diz. Não interessa o que diz o Rei. Se no jogo não há juiz, não há jogada fora da Lei. Não interessa o que diz o ditado. Não interessa o que o Estado diz. Nós falamos outra língua. Moramos em outro país''. E concluindo a narrativa, ainda acordado à subjetividade esquerdista, o personagem central demonstra não se importar com a alteração no resultado do produto a partir da deturpação na ordem dos fatores e resume, em poucas palavras, a inconsistência e o risco da teoria socialista: ''Nesse exército, o exército de um homem só, todos sabem que tanto faz ser culpado ou ser capaz (tanto faz)''. 

Tanto Moacyr, na originalidade da obra, quanto Humberto, na assertividade da sua assimilação, trouxeram materiais insignes para o historicismo político-social, além, é claro, de contribuírem, em muito, para o entretenimento como um todo.
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Kaio Lopes

Kaio Lopes

Crônicas e posições em geral.

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