03/08/2020 às 11h10min - Atualizada em 03/08/2020 às 10h09min

Medo, o senhor do nosso tempo


            No ano de 1999 vivemos o terror do “Bug do milênio”. Foi um auê! Era como se o mundo fosse acabar na virada do século. Para quem não viveu ou era muito novo, vou explicar: na época, diziam que nossos computadores não estavam preparados para a virada do século, para uma data que tivesse 00 no espaço do ano, e os computadores iriam paralisar por isso. Era um “bug”, um defeito que não havia sido previsto, embora já estivéssemos no final do século quando os computadores se tornaram acessíveis para a população em geral. Não vou entrar na questão técnica do que veio a ser o bug do milênio, porque quero deixar nesta coluna o assunto como ele veio à público.
            A coisa tomou proporções de catástrofe. Diziam que tudo ia parar, pois tudo era comandado por computadores. Veio o fim de ano, fogos em Copacabana e nada aconteceu, era verão e logo teria o carnaval. A discussão logo após a virada do ano foi se estávamos no século XX ou XXI, se o século começava no ano 00 ou no 01.
            Então veio as Torres Gêmeas, o mundo pirou e começaram a escutas telefônicas nos EUA em nome “da sua segurança”. Desde essa época, viajar de avião se tornou um suplício e equipes de voos passaram a ter poder de polícia dentro das aeronaves. O medo começou a ser palpável a partir daí.
            Quantos finais de mundo você lembra desde então? O calendário Maia acho que foi o mais falado. E os asteroides e meteoros que vão se chocar na Terra? Todo ano esse evento é ressuscitado. Explosões solares, pragas, doenças, e o mais efetivo: mudança climática. Em 1997, através de uma apresentação de Power Point, Al Gore, então vice-presidente dos EUA, mostrou ao mundo o caminho sem volta que estávamos tomando. O planeta se aquecia devido ao desenvolvimento da economia e a voracidade do capitalismo. As calotas polares iam derreter e veríamos inundações por todo o mundo, principalmente nas regiões costeiras.  De todas, com certeza o aquecimento global era a maior desgraça vinda em nossa direção, acho que pior que qualquer meteoro, porque a gente ia morrer aos poucos de fome, perderíamos nossas propriedades e a vinda seria um suplício. Lembro de um filme do Kevin Costner, Waterworld, que abordava exatamente isso, o mundo inundado pelo derretimento dos pólos. Apesar de achar que a maior desgraça era assistir a esse filme chatérrimo, ele explicava de forma lúdica o que iria nos acontecer. 
            De lá pra cá essa campanha tomou força, afinal, ela era bastante eficiente: países fecharam acordos para evitar a tragédia, milionários passaram a dar dinheiro para campanhas contra o aquecimento e marcas adotaram o selo “verde”. 
            O curioso foi o ex-Vice-Presidente Al Gore adquirir algumas casas no litoral da Califórnia, exatamente uma das regiões que, segundo ele, seria inundada pelo avanço do mar. 
            Mas nenhum medo foi tão eficiente quanto a pandemia. Então um vírus que estava sendo pesquisado na China acaba sendo espalhado para o mundo, milhares morrem, o que faz alastrar o pânico ao redor do globo, e o que aprendemos todos esses anos sobre doenças respiratórias é completamente esquecido. Todo mundo fica trancado em casa, numa quarentena nunca vista e que parece nunca terminar. A mídia fica contando incansavelmente o número de mortos, numa matemática esquisita, deixando as pessoas cada vez mais apavoradas. 
            E o pavor leva a agressão. Violência doméstica, abusos, pessoas raivosas gritando com quem não usa máscara, que sai de casa, ou quem simplesmente questiona as incongruências disso tudo. A loucura está espalhada. Enquanto isso, o pico da doença vai sendo adiado, e quando isso não funciona, fala-se em segunda e terceira onda.
            Enquanto isso, o movimento Black Lives Matter tenta reescrever a história americana; Facebook, Intagram e Twitter começam a caça às bruxas e bloqueiam os conservadores que apontam os erros e as falácias do discurso do medo. O STF faz da polícia federal uma espécie de gestapo e invade a casa de jornalistas, políticos e empresários, violentando a Constituição Federal, enquanto o seu presidente afirma ser o “editor do Brasil”, a pessoa que diz o que pode ou não ser dito ou escrito no país.
            Ficar em casa por medo leva ao empobrecimento do cidadão e a sua fraqueza diante do Estado. Ficar em casa mostra que toda vez que os poderosos quiserem nos controlar é preciso apenas espalhar o medo: a população fica obediente e cala com violência os questionadores, as indústrias farmacêuticas lucram horrores, grandes empresários ficam mais ricos e nós vamos perdendo as grandes conquistas da humanidade: a democracia e a liberdade.
 
 
 
 
 
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Andrea Wainchtock

Andrea Wainchtock

Crônicas da vida na América

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