08/01/2022 às 14h03min - Atualizada em 08/01/2022 às 14h01min

Turismo político. Adquira seu pacote e boa viagem!

Alexandre Siqueira
O Brasil tem 26 estados e um Distrito Federal, que abrigam 5.570 municípios.

Sua estrutura administrativa no âmbito executivo e legislativo é formada pelas Câmaras Municipais, Assembleias Legislativas, Câmara, Senado, e palácios de governos estaduais ou presidencial.

Já na estrutura judiciária, que fecha o círculo dos três poderes da república, tem um sem número de planos para atuação.
Para compor todo este cenário, as eleições são o principal fator de escolha, ainda que o judiciário se componha de forma indireta ou concursada.

Divagando em devaneios de forma lúcida, o que parece contraditório, mas não é, formatei uma possibilidade para o cidadão se posicionar neste mundo, quase mundano, que no fundo, no fundo, permeia e comanda todos os passos da sociedade. Faça um TURISMO POLÍTICO!

A locomoção, pouco importa, pode ser de carro, de ônibus, avião, carona, trem, navio, enfim. A hospedagem, da mesma maneira, de hotel 5 estrelas ou numa pensão de bairro, o importante é descansar do dia cansativo de idas e vindas aos pontos turísticos locais. Alimente-se, e prove da alimentação regional do lugar escolhido para seu tour. É fundamental!

Troque ideias, debata e interaja com os moradores, quem sabe de botequim em botequim, na esquina ou numa praça, tomando conhecimento das particularidades políticas que regem o cidadão, aquela comunidade e a sua rotina. Vai encontrar lugares pacatos, outros nem tanto. Pessoas agitadas ou revoltadas, outras zens. Mas não entre em discussão, evite o estresse, apenas ouça, e coloque seu filtro pessoal para funcionar. Afinal, o turismo político tem seu objetivo.

Cidade pequena, média ou grande, vá na Câmara Municipal, na Prefeitura, leia os editais e ordenamentos dessas casas, geralmente fixadas em quadros ou painéis. Observe a agenda do dia, as votações dos vereadores, com quem o prefeito vai despachar no período de trabalho, e o entra e sai de seu gabinete.

Não deixe de ir à Assembleia Legislativa, se sua escolha turística for uma capital. Como um bom pedestre, perambule por entre os gabinetes dos deputados. Em caso de ano eleitoral, bata na porta do gabinete quando ver o parlamentar por lá. Ele vai te receber com toda pompa e circunstância, eu garanto! Pergunte sobre os projetos dele, a relação com os eleitores, com seus pares... vai ouvir só coisas positivas. Uma beleza! Mas fale também, sobre futebol, a roupa dos artistas, sobre as belas coxas e do decote de sua vizinha, pois jogar conversa fora é especialidade da casa.
Nos palácios de governo, imagino que vai poder apenas contemplar os jardins ou as belas arquiteturas. Nestes lugares, para entrar é uma via crucis que não vale a pena investir. No templo judiciário da capital federal, então, nem tente! É perigoso até. Afinal de contas está fazendo um turismo político e não um safári às avessas.

Nota-se que sua viagem vai precisar de mais dias, né?

Passe em frente ao posto de saúde, e quem sabe ousadamente, entre na fila, aquelas enormes filas se for o caso, e concentre-se, como ouvinte, nas conversas. É lúdico, meu caro! Vai ouvir de fofocas a reclamações, das mais variadas. Não dê bola se uma atendente estiver fazendo tricô, seu bobo.
Infiltre-se, com jeitinho, numa repartição pública à sua escolha, é legal o ambiente. Vai ver até cadeiras só com o paletó. Alguns estarão trocando receita de bolo, como fazer um puxadinho na sua casa. É batata, afinal o tempo precisa passar! Inclua também no passeio, entrar numa redação de jornal ou rádio, num sindicato, patronal ou não. Puxe conversa com um servidor ou funcionário que lhe pareça simpático. Tome um cafezinho de garrafa térmica, pois vão lhe oferecer um, mesmo sem saber quem você é. E se lhe perguntar, não perca a oportunidade, encha o peito, e diga com a boca cheia: “Sou um turista político.” Ih, vai dar pano pra manga até explicar isso pra ele.

Não deixe de visitar o fórum... ah, o fórum! Na pauta do dia vai se deparar com julgamento de briga de vizinhos, mas pode também ser o de ladrões, pedófilos ou assassinos. Quem sabe dá sorte de poder assistir a audiência de um famoso protagonista do colarinho branco. Pode cruzar o caminho de um togado pelos corredores, mas não peça para tirar foto com ele. Não cometa essa insanidade.

Num deslocamento pela cidade, dê preferência ao ônibus urbano, é mais original e panorâmico para passear, e ainda enriquecer seu vocabulário e entender o relacionamento entre os passageiros e até com o motorista. Se acontecer alguma falta de educação, faça vista grossa. Desfrute do visual das pichações de prédios ou casas. Isso pode lhe dizer muito sobre a cultura local.

Busque visitar uma obra de impacto da prefeitura, ou quem sabe do estado, e leia atentamente a placa informativa da obra. Pode fazer um exercício matemático com o valor da obra, e com o tempo de início e previsão do término dela. Se o prazo já estiver esgotado, a regra de três será pouco. Vem superfaturamento por aí.

Se o planejamento de sua viagem contemplar um evento político, tipo uma convenção partidária, por exemplo, sinta-se um felizardo. Seu pacote foi premiado. Não vai faltar um “vamos entrar, amigo.” Não terá como fugir daqueles discursos enfadonhos e às mesmices de afagos ou ataques conforme o que miram. E o tapinha nas costas, quem sabe de um figurão, hein? Vale a pena a aventura! Recomponha-se ao concluir que as moscas variam, mas a bosta... Porém, quem sabe, contudo, todavia, pode ter um iluminado filho de Deus por ali. Já pensou alguns anos depois você testemunhando sobre um grande líder político?

Ao retornar pra casa, as comparações e reflexões serão inevitáveis. Sua percepção do mundo político vai mudar, com certeza! Vai valorizar mais seu voto, encarar com mais convicção suas opções de escolha. Vai entender o caminho do imposto que paga, os porquês dos interesses envolvidos no jogo político. Vai apurar sua sensibilidade ao ler ou ouvir o noticiário. Vai ver que nem tudo que lhe parece, é. Isso não é pouco, não!

Uma visão mais humanizada vai se abrir diante de você. Vai ver que você não é apenas um mero número estatístico na multidão e sim um cidadão que pode ajudar a mudar a situação. Seu grito, ainda que silencioso, pode ajudar a corrigir os rumos de um país inteiro. Acredite! Não vai sofrer por mandar à merda os enganadores de plantão.

Vá viver sua liberdade, tocá-la e ser tocado por ela. Vá ser feliz!
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Alexandre Siqueira

Alexandre Siqueira

Jornalista e administrador esportivo. Articulista no Jornal da Cidade e Jornal Tribuna Nacional.

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