08/12/2020 às 16h20min - Atualizada em 08/12/2020 às 16h20min

Caso Celso Daniel, o crime perfeito?

Enfim, muitos suspeitos, muito envolvidos, muita repercussão, oito mortes suspeitas de queima de arquivo envolvidas com o caso e quase 19 anos depois, ainda permanece a pergunta: Quem mandou matar Celso Daniel?

Cristina Barroso
(REPRODUÇÃO)
Quase 19 anos depois, o assassinato do prefeito de Santo André, Celso Daniel, permanece envolto em sombras profundas e a principal testemunha, conhecida justamente pelo apelido de “Sombra”, levou para o túmulo os segredos, a podridão e a lama que envolviam a Prefeitura de Santo André.
Em 20 de janeiro de 2002, o corpo do engenheiro e então prefeito de Santo André, Celso Daniel (PT), no ABC Paulista, foi encontrado com onze tiros e marcas de tortura (o que não poderia configurar um crime comum, mas alguém que sofria agressões para que ele, em tese, revelasse alguma informação) em uma estrada de Juquitiba, na região metropolitana de São Paulo.

No dia 18 de janeiro de 2002, Celso Daniel saiu de uma churrascaria no bairro dos Jardins, zona sul de São Paulo, em um Mitsubishi Pajero blindado dirigido por seu empresário e ex-segurança Sérgio Gomes da Silva, conhecido como "Sombra". Na volta para o ABC, ao passarem pela Rua Antonio Bezerra, no Sacomã, o carro foi interceptado por sete bandidos armados, que fecharam o veículo e atiraram contra os pneus e vidros. "Sombra" afirma que, no momento dos disparos, o câmbio e a trava do veículo não funcionaram mais. Em seguida, os criminosos sequestraram o prefeito, deixando o motorista no local que embora estivesse armado não resistiu e tornou-se o principal suspeito.

Muitas falcatruas infestavam a Prefeitura de Santo André e Celso Daniel, que seria o coordenador da campanha de Lula à Presidência da República, descobriu as maracutaias sobre as concessões para empresas de ônibus em transportes coletivos. Esse detalhe abriu um leque próprio para as investigações, que conduziram a um poderoso empresário da região, que chegou a ser preso. O prefeito tornou-se absolutamente incômodo.

O Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa, DHPP, especializada em investigar crimes de autoria desconhecida, ao concluir, que Celso Daniel fora assaltado por criminosos comuns, que não perceberam na hora quem era a vítima, encaminhou a uma delegada de bairro que reiniciasse a investigação do caso. A delegada — Elisabete Sato — estava na ocasião à frente da delegacia nos Jardins, o 78º Distrito Policial. O delegado-geral, chefe da Polícia Civil, Marco Antonio Desgualdo, concordou com a inversão hierárquica, por influências políticas às quais a Polícia costuma submeter-se. Sato corroborou, com as investigações do DHPP e encaminhou à Justiça e ao Ministério Público relatório de cinco páginas sobre o caso, com a conclusão de que o crime não teve motivações políticas.  Algum tempo depois, foi promovida a classe especial e assumiu a diretoria do Departamento.
 
A Polícia Federal entrou na investigação, instalou grampos telefônicos na prefeitura de Santo André, com a devida autorização do juiz-corregedor da Polícia. Fez a gravação de conversas para lá de cabulosas e juntou-as ao processo.
O que foi apurado pela escuta era por demais terríveis.
Então o juiz federal João Carlos da Rocha Matos, que bem mais tarde seria exonerado do Judiciário por falcatruas múltiplas, entre as quais a venda de sentenças, argumentou que policiais federais precisavam ter autorização da Justiça Federal para fazer a escuta, e não de um juiz estadual. Ele mandou “retirar” o conteúdo da escuta telefônica dos autos, e ainda mandou apreender todas as fitas.
Tempos depois, descobriu-se que o juiz estava enrolado em casos gravíssimos, que resultariam na sua expulsão da magistratura. Diante de fatos tão graves, sua prisão foi decretada. Em seu apartamento, na Praça da República, onde residia com a mulher, foram encontradas (e apreendidas) as fitas dos grampos telefônicos na Prefeitura de Santo André.

Em depoimento dado ao Ministério Público de São Paulo, o empresário Marcos Valério afirma que o ex-presidente Lula foi um dos mandantes do assassinato do prefeito de Santo André, Celso Daniel, ocorrido no ano de 2002.
Para a Promotoria, o motorista de Celso Daniel, "Sombra", teria mandado matar o prefeito após ele ter ameaçado colocar fim em um suposto esquema de corrupção no setor de transportes da cidade. 
O irmão de Celso Daniel, João Francisco, afirmou na época que o esquema teria alimentado campanhas do PT
 
A motivação do crime, segundo Valério, era o fato de que Celso Daniel se comprometeu a pagar pela caravana de Lula durante campanha no Brasil, mas não quis envolver a prefeitura de Santo André em casos de corrupção que só serviriam para enriquecimento pessoal do grupo.
 
Segundo Valério, ele, Ronan Maria Pinto, empresário dono do jornal O Grande ABC e de empresas de ônibus, e Delúbio Soares, antigo tesoureiro do PT, participaram da reunião em um hotel de São Paulo.
Depois disso, eles acertaram um "empréstimo" de 12 milhões com um banco para comprar o silêncio de Ronan em troca de um contrato de operação da Petrobras.
 Antes de fechar a negociação, porém, Ronan teria contado que “não pagaria o pato” sozinho e “afirmou com muita clareza e um modo muito simples que lhe é próprio que iria apontar o presidente Lula como mandante da morte do prefeito Celso Daniel”.
 Apesar da morte de Celso Daniel ser considerada um "crime comum", as informações fornecidas por Marcos Valério fizeram o promotor Roberto Wider Filho encaminhar o depoimento a um grupo do Ministério Público e iniciar uma investigação sigilosa.
 
O caso Celso Daniel tornou-se um caso digno de um romance policial, teria sido um caso de crime perfeito?
 
O crime contra Celso Daniel foi de fato seguido por outras oito estranhas mortes que podem ter relação com o caso.  
Vejamos quem são:
 
Carlos Delmonte Printes
Médico legista que emitiu o laudo identificando sinais de tortura no corpo do prefeito, afirmando que Celso Daniel foi embalsamado - o que possibilitaria uma autópsia posterior - e que a real data da morte foi em 19 de janeiro.
Printes foi encontrado morto em seu escritório, em outubro de 2005. A Polícia Civil concluiu que o médico cometeu suicídio por causa do fim de seu casamento, ingerindo medicamentos que interromperam sua respiração.

Dionísio Aquino Severo
Líder da quadrilha da Favela Pantanal, foi resgatado por um helicóptero do Presídio Parada Neto, em Guarulhos (SP), dois dias antes do sequestro de Celso Daniel, do qual participou.
Foi preso três meses após o crime e afirmou a polícia que tinha revelações a fazer. Antes de contar o que sabia, foi encontrado morto no Presídio do Belém, em São Paulo.
Aílton Freitas, um dos presos que fugiram com ele, disse em depoimento que Dionísio havia sido resgatado para cumprir a tarefa de "queima de arquivo" de um "peixe grande" e que o empresário Sérgio Gomes da Silva, o "Sombra" seria o mandante do crime.

Sergio ‘Orelha’
Escondeu Dionísio quando ele fugiu do presídio de Guarulhos. Foi morto a tiros em novembro do mesmo ano.
Otavio Mercier
Investigador da Polícia Civil que procurava Dionísio após a fuga e conversou com ele pelo telefone às vésperas do sequestro de Celso Daniel. Foi encontrado morto em casa também com marcas de tiros.

Antonio Palácio de Oliveira
Garçom que serviu o último jantar do prefeito, em uma churrascaria na região central de São Paulo, do qual Celso Daniel saíra com Sombra quando foi sequestrado. Morreu ao chocar a moto contra um poste quando era perseguido por dois homens.

Paulo Henrique Brito
Testemunha do acidente do garçom, foi morto 20 dias depois.

Iran Moraes Redua
Agente funerário que reconheceu o corpo de Celso Daniel em uma estrada de terra em Juquitiba, a 78 quilômetros de São Paulo. Foi morto a tiros em novembro de 2004.

Eliana Vendramini
Em Agosto de 2010 a promotora Eliana Vendramini, responsável pela investigação e denúncia que apura o assassinato do ex-prefeito Celso Daniel, sofreu um acidente automobilístico em uma via expressa de São Paulo.
O veículo blindado conduzido pela promotora capotou três vezes após ser repetidamente atingido por outro automóvel, que fugiu sem prestar socorro.
 
Um dos promotores do caso mostrou ao menor que alegou ter atirado no prefeito, uma foto de Celso Daniel. Este não conseguiu reconhecer a pessoa na foto, sendo posta em dúvida a hipótese de ele ter sido o autor dos disparos que vitimaram Celso Daniel.
A família pressionou as autoridades para que o caso da morte do prefeito fosse reaberto. Em 5 de agosto de 2002 o Ministério Público de São Paulo solicitou a reabertura das investigações sobre o sequestro e assassinato do prefeito.

Passados 14 anos, as circunstâncias da morte de Celso Daniel voltam à baila por meio da Lava Jato, que enxerga no episódio um potencial esqueleto no armário do PT.
Ronan Pinto, empresário do setor de ônibus e dono do jornal Diário do Grande ABC, foi preso por suspeita levantada pelo time do então juiz Sergio Moro, que traz de volta esse crime. Após pagar fiança de um milhão de reais o empresário foi solto com tornozeleira eletrônica.
O empresário é suspeito de ter recebido seis milhões de reais, em 2004, por intermédio do pecuarista João Carlos Bumlai, amigo de Lula, a pedido do PT.
A tese da força tarefa da Lava Jato é que o dinheiro pode ser fruto de propina paga pelo partido para que ele não revelasse detalhes da morte de Daniel, que implicariam o PT.


Enfim, muitos suspeitos, muito envolvidos, muita repercussão, oito mortes suspeitas de queima de arquivo envolvidas com o caso e quase 19 anos depois, ainda permanece a pergunta:
Quem mandou matar Celso Daniel?
 
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